Fazer o Luto do Bebé Que Não Nasceu!

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Imagem retirada do Google

Hoje é dia 15!
15 de Outubro!
Em muitos países este dia é reconhecido como  Dia Nacional de Consciencialização para a Perda Gestacional!

Em Portugal a história é outra!

 A Associação Projecto Artemis criou uma petição (que eu assinei) para que este dia também fosse reconhecido em Portugal. E assim se fizeram ouvir as vozes de todas as mães, num debate no parlamento, cheio de aplausos e palavras bonitas de todos os partidos políticos. Mas ficou por aí... Até hoje (quase um ano depois) continuamos à espera!

Mais do que termos um dia dedicado a nós, que já sentimos, e iremos sentir para o resto da vida, esta dor, o que pedimos é que sejam criadas condições para podermos viver o nosso luto com a mesma dignidade de qualquer outra pessoa que perde um ente querido! Com a diferença de que a pessoa que perdemos, apenas viveu dentro de nós!

Há milhares de mulheres a passarem por esta dura realidade! Todos os dias uma mulher, algures, perde um filho.

"Algures" é um sitio que não podemos escolher... porque se pudéssemos, fugiríamos de alguns hospitais! 

Nem todos os hospitais estão preparados para nos receber!

Parece incrível, não é? Em pleno século XXI, num país dito evoluído ainda se junta uma mãe que acabou de perder o seu bebé no mesmo quarto em que outra mãe embala o filho recém-nascido!

Num hospital dotado de equipamentos de alta tecnologia, ainda conseguimos encontrar pedras vestidas com uma bata com o titulo de doutores, mas que nos conseguem dizer com a maior frieza que "um coração que não bate é um coração que está morto"

Foi com esta frase, que em 2012, descobri que o meu bebe me ia ser retirado.
Lembro-me como se fosse hoje. Estava sozinha, com um monstro que se dizia médica, que me fez uma ecografia em segundos, disse que a gravidez ficava por ali, mandou-me limpar a barriga e ir ter com ela ao gabinete... Mudou o turno e, felizmente, não me voltei a cruzar com ela.

Fui colocada num quarto à parte, só para mim e para o meu marido e tirando aquela pedra com pernas fui bem tratada. Dois dias depois cheguei a casa de ventre plano e braços vazios. Meia dúzia de chamadas de pessoas que sabiam o que se estava a passar, com as mesmas frases feitas.

As pessoas não sabem o que dizem!

Pesquisei muito, li bastante e percebi que a perda gestacional é de facto um assunto tabu. Quando não sabemos falar sobre um assunto, fugimos dele. É mais fácil ignorar e fazer de conta que já passou!

Também há aquelas pessoas que não nos ignoram, mas têm uma ignorância tão grande nas suas cabeças que mais valia estarem calados.
"Podia ser pior, podias ter  um cancro ou podia o bebe ser deficiente!" - Eu acabei de perder um  filho, certo?! "Logo arranjas outro" - e até lá faço o quê a este vazio que sinto?! "Já passou tanto tempo, para quê continuar a pensar nisso?" - Quando uma pessoa morre tu fazes um reset na tua memória e nunca mais pensas nela?! "Não chegou a nascer, não existiu" - E o tempo que viveu dentro de mim, e as expectativas que se criaram, os planos que se delinearam e as compras que se fizeram? O meu bebé existiu sim, tinha cabeça, pernas, braços, mãos e pés... apenas não teve um coração suficientemente forte!
É ridículo que a nossa volta, a maioria das pessoas não saiba falar sobre o aborto! E por isso é que as nossas histórias devem ser partilhadas, para que quem está de fora se ponha um pouco na nossa pele e aprenda a lidar com assunto que apesar de ser melindroso não deve ser um tabu!

É muito comum acontecer!

São os próprios médicos a dizerem isto, e por isso quando uma mulher passa pelo seu primeiro aborto é desvalorizado. Em Portugal, os estudos genéticos são feitos apenas quando a mulher passa pelo terceiro aborto consecutivo! Só aí é que tem direito a que o nosso SNS investigue o seu caso e lhe dê a resposta que mais precisa: Porque é que isto aconteceu?

Claro que é possível fazer estudos genéticos fora do SNS, mas quantas são as mulheres a ter capacidade económica para o fazer??


No meu caso teria sido bom se, naquela altura, tivessem descoberto a razão da minha perda.
Em vez disso, nos primeiros dias de 2017, numa ecografia de final de trimestre de uma terceira gravidez, descobri que, mais uma vez, o meu bebé estava morto!

Mais um aborto!
A médica ainda não tinha dito nada, mas uma mulher ao final de três gravidezes já é uma expert em ecografias e assim que vi o meu bebe percebi. A médica olhou-me nos olhos e disse-me "A Joana já percebeu, não já?" 

Chorei, minto...GRITEI! Mas desta vez a bata branca pertencia a uma doutora que mais do que médica era uma verdadeira mulher. Abraçou-me e beijou-me!
Mandou-me para casa, de nada valia ir para o hospital nessa noite e prometeu encontrar-se comigo no hospital no dia seguinte.

Quando cheguei a casa, sozinha no WC, atirei-me para chão gelado, queria sentir o frio para não sentir tanto a minha dor! Queria que o chão me engolisse e me levasse! Não queria comer, o meu organismo ainda não tinha percebido que a gravidez ficara por ali, as nauzeas e vómitos permaneciam, a barriga ainda existia!

Cada hospital tem uma realidade diferente.

No dia seguinte lá fui ter ao hospital como combinado. Desta vez com uma médica espetacular, mas num hospital tão diferente!

Não tive um quarto só para mim. As enfermeiras "obrigaram-me" a caminhar, para que a indução do "parto" funcionasse mais rapidamente.

Pelos corredores da urgência obstétrica caminhavam outras mulheres que estavam prestes a ter os seus bebes nos braços. Nessa zona não era permitida a entrada do meu marido. Ainda assim, disse à enfermeira que o queria comigo e ela disse-me que o "único sitio onde os pais podiam andar era no corredor do bloco de partos..."

Estão a imaginar? A minha escolha era caminhar com outras grávidas prestes a terem os seus filhos ou caminhar com o meu marido no corredor do bloco de partos onde podia ouvir o primeiro choro dos seus bebes!

Escolhi o bloco de partos, eu lido bem com a felicidade dos outros e para mim era mais importante ter o meu marido comigo. Se haviam ali crianças a nascer, só lhes podia desejar o melhor!

Ao fim de dois dias a caminhar naquele corredor o meu "parto" não aconteceu. Para o meu corpo eu ainda estava grávida e por isso a expulsão do bebe não se deu naturalmente.

Fui para o bloco operatório, onde encontrei uma equipa que não consigo descrever em palavras. Fizeram a proeza de me fazer rir num momento tão difícil. Ainda antes de adormecer com a anestesia ouvi o médico dizer "Por favor, esta rapariga é para internar no piso de  ginecologia!"

Não aconteceu! Fui internada na maternidade porque na ginecologia não haviam camas disponíveis! Passei a noite a ouvir bebes a chorar e a abafar o meu próprio choro!

Foi um processo extremamente doloroso, pela dor física mas também porque a dor emocional é demasiado solitária. Ninguém sente por nós! Ninguém! O pai também sofre mas não é na mesma proporção.

Foi o nosso corpo que mudou, que nos trouxe os sintomas da gravidez para nos lembrar todos os dias que aquele bebé está dentro de nós.Por isso quando o arrancam à força fica o vazio, que também se sente todos os dias!

A vida vai andando, mas uma parte de nós fica pelo caminho... Podemos voltar a sorrir, mas não com a mesma espontaneidade. Tornei-me numa pessoa mais fria e desligada, não só pelas minhas perdas, mas também por perceber que as pessoas vivem focadas no seu próprio umbigo.
É fácil dizer "estou aqui para o que precisares" mas quando estamos sozinhas em casa, quem se vai lembrar de nos levar para beber um café ou simplesmente sentar-se no sofá connosco e ouvir a nossa dor?

Por isso é que precisamos que seja criado o dia de consciencialização da perda gestacional, para que todos saibam lidar com esta situação. E quando falo de todos, não falo só dos pais que perderam os seus filhos, falo dos familiares que precisam de saber dar apoio, dos amigos que precisam de aprender a dar mais abraços e do governo que precisa de mudar algumas leis!

Em Portugal, as leis não permitem que os pais façam luto após um aborto!

Para o nosso país, em termos de dados estatísticos, grande parte destes bebes que se perdem diariamente não existem porque até às 25 semanas, estas perdas gestacionais não são reportadas.
No entanto estima-se que, entre o primeiro e terceiro mês de gestação, morram por ano, em Portugal, 400 bebés!!

Se considerarmos que às 12 semanas os bebés já estão completamente formados (os meus dois estavam) porque é que, oficialmente, não existem?? 

E se isto é um processo demasiado doloroso porque é que os hospitais não estão devidamente preparados para apoiar estes pais? Em dois internamentos que tive, em nenhum, tive direito a acompanhamento psicológico, estranho não é?

Mas há pior... muito pior! Ás 20 semanas a gravidez já está a meio, não há dúvidas que existe um bebé, mas se por infelicidade ele morrer, a mãe que vai ter de passar pelas dores de um parto normal, não pode registar o seu filho nem pode fazer o seu funeral!

Em Portugal, só se registam bebés que nasçam (vivos ou mortos) apartir da 25ª semana de gestação! E só esses têm direito a um funeral!

O que é que acontece aos outros? Os corpos dos bebes com menos de 25 semanas são aproveitados para estudos clínicos e depois são incenerados!! E não vale a pena dizerem que são cremados porque na cremação a família fica com as cinzas o que não é o caso. A realidade nua e crua é que são incenerados e vão para o lixo!! É este o respeito que se tem por estes bebes e estes pais!!

Por isso é que, cada vez mais precisamos de ser ouvidos! Ainda há muita gente que esconde que passou por um aborto mas... BASTA! Os nossos bebés existiram e nós sofremos! Não vou guardar em segredo a minha dor só porque os outros se podem sentir desconfortáveis com isso!

Eu tenho orgulho em dizer que tenho 3 filhos, uma menina linda que vive todos os dias de mão dada comigo e outros dois que estão há distância de um céu! E acreditem... não amo menos a minha filha por continuar a amar os que partiram!

Eu sei o motivo pelo qual perdi os meus bebés e isso ajuda a apaziguar o meu coração mas não deixa de doer!


Se vou alguma vez superar esta dor? Não! Limito-me a aceitá-la e entende-la! Faz parte de mim, da minha história!

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9 comentários

  1. Lamento muito!
    Espero realmente que as coisas mudem, que se esqueça um pouco a burocracia e quem mande aprenda a calçar os sapatos dos outros...
    Um beijinho grande e que daqui para a frente só coisas boas te batam à porta :)

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  2. Paralisei ao ler. Nem sei o que dizer. Não somos educados para agir nestas situações. Mas acho que paraliso por imaginar cada situação como se fosse minha. Os medos de perder que me são próprios, fazem me sentir que senhoria o mesmo que tu, se tivesse ou se algum dia acontecer comigo. É preciso desmistificar o preconceito. Mas só com textos assim as pessoas entenderao a dor e a dificuldade em "esquecer". Como se fosse possível esquecer um filho?😓 Muita força, minha querida ❤ Beijinho grande

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  3. Li e revi-me... Passei pelo mesmo... Com a diferença que estava no grupo das 20 semanas..perdi todo o líquido amniótico e por isso teve o meu parto de ser induzido.
    Quando tomei o primeiro comprimido sabia que era o início do fim.
    Senti o meu Gustavo sempre... Foram mais de 10 horas de trabalho de parto em que sentia que no meio de tanta dor física e psicológica chegava a perder a consciência.
    Parto normal... Vi-o nascer... Era um bebé...e lá foi embrulhado num resguardo.
    Ali acabou como se nunca tivesse existido.
    É uma dor que só nós sabemos e não vale a pena escalarmos dores.
    Um beijinho

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  4. Revejo-me em tudo o que escreveu. Perdi o meu filho com 37 semanas de gestação e também fui atendida por uma besta de bata. Passei 2 dias no bloco de partos à espera que o meu corpo trouxesse ao mundo meu menino para que me pudesse despedir dele. Tirando a besta que me atendeu nas urgências toda a equipa medica que me acompanhou a seguir foi fantastica e enquanto estive internada, estive num quarto sozinha na ala ginecologica. O meu menino teve direito a um funeral mas não lhe pude dar o nome que tinhamos escolhido para ele, tem certidão de obito mas não de nascimento, para a sociedade é apenad "feto morto", para mim é o meu francisco, o meu tesouro. Também senti que as pessoas à minha volta não compreendiam a minha dor, houve quem se afastasse porque supostamente me afastei primeiramente porque simplesmente não conseguia conviver, estava demasiado ocupada a viver a minha dor. Houve quem dissesse que o que compensava a perda do meu filho era ter outro, obviamente não sabem do que falam. Hoje tenho outro menino e continuo a sofrer com a perda do meu francisco e um dia o mano saberá k tem um anjinho a olhar por ele.

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  5. Partilho a minha solideriedade e perda! É lamentável a ignorância e a falta de sensibilidade de certas pessoas quanto a este assunto, vivo numa ilha e passa-se exactamente o mesmo e o tratamento também. Só quem passa por esta dor consegue se colocar no nosso lugar entende e é solidário para conosco. Foi preciso duas perdas para fazer exames profundes e perceber que a Trombofilia é uma realidade e é preciso vigiar desde o primeiro instante...Ver a culpa expressa na cara do médico é uma sensação confusa! Mas tudo bem, Deus sabe o que faz, e o que for para mim será! Quando me perguntam se tenho filhos respondo " SIM NO CÉU " o embaraço é maior para quem faz a pergunta, porque não sabe como reagir! Eu aprendi a enfrentar a dura realidade, e SER MÃE DE ANJO é um previlégio Muito ESPECIAL, eu também fui escolhida para um BEM MAIOR! Meus Filhos Almas que precisava de AMOR para poder completar a sua Missão e eu fui escolhida e sou Grata. Os planos do altissimo são bem maiores que os meus eu entrego e confio...assim é!

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  6. Sei bem, ou quase bem o que sente, eu tive duas gravidezes ectópicas , e senti o coração do meu bebé a bater... é um sofrimento muito grande... duas cirurgias, e um abandono total, médicos e família... a família por ignorância sim.... já os médicos...
    Não tive filhos... o sofrimento físico foi enorme mas o psicológico muito maior...

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  7. Não fazia ideia que tinhas passado por tudo isso. Que texto emocionante.
    :(

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  8. Partilho a minha perda com vocês, porque por vezes sinto-me sozinha com esta dor que nunca vai sair da minha memória e do meu coração.
    Também sou mãe de um anjo...
    Não passei por um aborto,mas respeito muito quem passou por isso...
    Há seis anos que estou num processo de infertilidade...e milagrosamente no início de 2017 engravidei naturalmente...sem FIV, sem injeções...naturalmente, ficamos super felizes,o nosso Sonho iria se realizar, tive uma gravidez maravilhosa sem enjoos, estava tudo a correr tão bem ate o quinto mês, depois foi tudo a desmoronar com 27 semanas tive que fazer uma cesariana de emergência por ter uma placenta envelhecida de grau 3.
    O meu bebê nasceu era considerado um grande prematuro pesava 500g, fiquei internada durante algum tempo e tiveram a sensibilidade de me colocar num quarto com situações parecidas à minha, foi muito reconfortante.
    O meu bebê esteve internado na unidade de cuidados intensivos neonatal, e a equipa foi excepcional, muito sensíveis, sempre atentos a mim e ao bebê.
    O meu bebê viveu 15 dias...
    15 dias repletos de emoções...
    É muito difícil ver um bebê que foi tão desejado numa incubadora,tão pequenino cheio de fios, ventilado,etc.e não poder fazer nada para reconforta-lo...
    Foram os 15 dias mais difíceis da minha vida...e depois de uma melhora repentina, tudo acabou...em Setembro o meu bebê morreu nos meus braços...a primeira vez que pego o meu bebê ao colo foi para ele morrer.
    Mas agradeço ter visto o meu bebê poder tocar e pegar nele...
    De momento estou a ser acompanhada por uma psicóloga do SNS, tem sido muito importante para mim.
    Realmente as pessoas não sabem o que dizem...muitas vêem que ja não tenho barriguinha de grávida e felicitam pelo nascimento do bebê...são situações tão embaraçosas e dolorosas para mim...mas é assim a nossa sociedade.
    Tenho saudades....muitas saudades de sentir o meu bebê na minha barriga...
    Um aborto ou perder um bebê prematuro...são PERDAS que devem ser respeitadas e não banalizadas...
    UM DIA CARREGUEI NO MEU VENTRE UM ANJINHO QUE ESTÁ NO CEU...

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  9. Compreendo bem a sua dor. No meu caso, foi com 37 semanas e 6 dias, foi em setembro do ano passado. Apesar de ter sido bem tratada, com muito carinho por parte da equipa médica, não há palavraa para descrever o sofrimento. E hoje, é-me muito dificil encarar certas pessoas, mas mais triste ainda é a falta de sensibilidade inclusive de mulheres e mães que deviam era estar caladas em vez de usarem aquelas frases cliché quando ninguém lhes pergunta nada. Toda a vida muda assim como todo o nosso ponto de vista muda, e sim há um distanciamento entre as pessoas, porque depois desta tragédia, a opinião idiota de quem acha que sabe é para ir para o lixo.

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